Há países cuja História parece ter sido escrita por um historiador. A de Angola, por vezes, dá a impressão de ter sido escrita por uma equipa inteira de argumentistas que decidiu misturar impérios, guerras, petróleo, diamantes, ideologias, corrupção, música, futebol e uma dose generosa de esperança.
O problema é que, durante muito tempo, a riqueza esteve sempre presente no país, mas a prosperidade parecia ter recebido uma morada errada. Angola sentou-se sobre petróleo e diamantes, mas milhões de angolanos continuaram à espera de que essa riqueza finalmente chegasse também à mesa de jantar.
O Reino do Kongo e as marcas do período colonial em Angola
Muito antes de aparecerem os primeiros poços de petróleo ou de alguém começar a escavar à procura de diamantes, já existiam na região sociedades africanas organizadas, entre elas o poderoso Reino do Kongo, que mantinha relações comerciais e diplomáticas com outras regiões de África. No século XV chegaram os portugueses, liderados por Diogo Cão, e começou uma relação que duraria quase cinco séculos.
O contacto inicial foi sobretudo comercial e diplomático, mas rapidamente se transformou em domínio colonial, exploração económica e, tragicamente, numa participação profunda no tráfico transatlântico de escravizados. Angola tornar-se-ia uma das principais regiões africanas envolvidas nesse comércio, deixando uma ferida histórica que atravessaria gerações e continuaria a influenciar profundamente a sociedade angolana muito depois de a escravatura ter sido abolida.
Durante o período colonial, Portugal consolidou o seu domínio sobre o território, embora o controlo efectivo do interior tenha sido um processo lento e violento. A partir do final do século XIX e sobretudo durante o século XX, aumentaram a exploração agrícola e mineira e a construção de infraestruturas, mas também a desigualdade brutal entre colonizadores e a população africana.
A independência começou a tornar-se inevitável quando os movimentos nacionalistas ganharam força. Em 1975, depois de uma longa guerra de libertação, Angola tornou-se finalmente independente. Só havia um pequeno problema: a independência chegou acompanhada de uma guerra civil devastadora que duraria quase três décadas. O país tinha acabado de se libertar de Portugal e já estava a descobrir que a História tinha preparado uma segunda temporada.
A Guerra Fria e a destruição da Guerra Civil
A Guerra Civil Angolana transformou o país num dos grandes campos de batalha da Guerra Fria em África. De um lado estava o MPLA, apoiado pela União Soviética e por Cuba; do outro, a UNITA, apoiada sobretudo pelos Estados Unidos e pela África do Sul durante diferentes fases do conflito.
Cuba chegou a enviar dezenas de milhares de soldados para Angola, numa intervenção que se tornou decisiva em vários momentos da guerra. A África do Sul também interveio militarmente. Angola, entretanto, ficava no meio de uma disputa internacional que tinha muito pouco a ver com a vontade dos seus cidadãos e muito a ver com a velha tradição das grandes potências de transformar países alheios em tabuleiros de xadrez.
A guerra terminou finalmente em 2002, depois da morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA, e deixou atrás de si milhões de pessoas deslocadas, infraestruturas destruídas e um país que precisava praticamente de reconstruir-se do zero.
O boom do petróleo e o fantasma dos diamantes de sangue
E então entrou em cena o petróleo, como uma espécie de personagem que chega atrasada à história, mas exige imediatamente o papel principal. Angola possuía enormes reservas de petróleo e tornou-se um dos maiores produtores de África.
A receita petrolífera cresceu enormemente durante os anos de preços elevados, permitindo ao Estado financiar estradas, aeroportos, hospitais, habitação e grandes obras públicas. Ao mesmo tempo, a riqueza concentrou-se de forma escandalosamente desigual e a economia ficou excessivamente dependente do petróleo.
Quando o preço do barril subia, havia optimismo. Quando caía, descobria-se novamente que depender quase exclusivamente de uma matéria-prima talvez não fosse a estratégia económica mais revolucionária do século XXI. Os diamantes, entretanto, continuavam a representar outra enorme riqueza natural, embora também tenham estado ligados às redes de financiamento da guerra civil e ao comércio de “diamantes de sangue“.
Luanda moderna, arranha-céus e desigualdade social
Com o fim da guerra, Angola entrou finalmente numa fase de reconstrução e relativa estabilidade política. Luanda cresceu rapidamente, surgiram novos edifícios, estradas e bairros, e o país passou a ser visto como uma das grandes economias emergentes de África.
Contudo, a prosperidade foi profundamente desigual. A capital podia apresentar arranha-céus reluzentes e hotéis de luxo, enquanto muitas comunidades continuavam sem acesso adequado a água potável, saneamento, saúde e educação.
Angola tinha petróleo suficiente para fazer o mundo inteiro prestar atenção, mas ainda não tinha conseguido transformar essa riqueza numa qualidade de vida equivalente para toda a população. É uma das ironias mais persistentes da sua História: um país extraordinariamente rico em recursos, mas onde a pobreza continuou a ser a realidade diária de milhões.
O combate à corrupção e a transição política
Em 2017, João Lourenço sucedeu a José Eduardo dos Santos, que tinha governado o país durante quase quatro décadas. O novo Presidente prometeu combater a corrupção de frente, diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo.
Houve mudanças importantes, investigações e esforços para recuperar activos públicos, mas os problemas acumulados durante décadas não desapareceram magicamente. Angola continua a enfrentar desemprego, desigualdade, dificuldades económicas e uma forte dependência das receitas petrolíferas.
Ainda assim, possui enormes potencialidades: terras agrícolas, recursos minerais, uma população jovem, uma cultura vibrante e uma localização estratégica na costa atlântica. O país tem, portanto, quase tudo para crescer — excepto, talvez, a possibilidade de saltar directamente para o capítulo em que tudo já está resolvido.
A verdadeira riqueza angolana e o futuro
E talvez seja precisamente essa a história que Angola continua a escrever. Um país que passou por séculos de exploração colonial, uma guerra de independência, uma das guerras civis mais longas de África e uma reconstrução gigantesca não perdeu a capacidade de imaginar um futuro melhor.
O petróleo pode acabar, os diamantes podem tornar-se menos importantes e os governos podem mudar, mas existe uma riqueza que Angola continua a produzir em abundância: música, cultura, criatividade e uma esperança inesgotável.
Afinal, o grande desafio é finalmente transformar essa esperança numa prosperidade que não fique concentrada em quem controla os poços, as minas ou os gabinetes. Porque Angola já provou que consegue sobreviver a quase tudo. Agora falta-lhe provar que também consegue prosperar — e, de preferência, sem precisar de esperar mais uma guerra, mais um barril de petróleo ou mais um milagre.
